Bolsonaro disse em evento no Palácio do Planalto que a máscara tem utilidade somente para quem está infectado. E foi aplaudido. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

O presidente Jair Bolsonaro afirmou quinta-feira (10), durante cerimônia no Palácio do Planalto, que pediu ao Ministério da Saúde um parecer para desobrigar o uso de máscara por pessoas que já estejam vacinadas ou que tiveram a COVID-19.

“Acabei de conversar com um tal de Queiroga, não sei se vocês sabem quem é. Nosso ministro da Saúde. Ele vai ultimar um parecer visando a desobrigar o uso de máscara por parte daqueles que estejam vacinados ou que já foram contaminados para tirar este símbolo que, obviamente, tem a sua utilidade para quem está infectado“, afirmou o presidente durante solenidade para anúncio de medidas do Ministério do Turismo.

A obrigação do uso de máscara em espaços e ambientes públicos, entre outras medidas sanitárias, é definida em decretos estaduais e municipais, por iniciativa de prefeitos e governadores, conforme decisão vigente do Supremo Tribunal Federal (STF).

De acordo com epidemiologistas, a população vacinada ou que já teve a doença deve continuar usando máscaras porque, mesmo imunizada, ainda pode transmitir o vírus para outras pessoas. Segundo especialistas, a desobrigação do uso de máscara só seria recomendável quando o país alcançar um número expressivo de pessoas completamente vacinadas.

Estudo

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou no início da noite de quinta-feira (10), nas redes sociais, que recebeu o pedido do presidente para produzir um estudo sobre flexibilização do uso de máscaras. O avanço da vacinação no país teria motivado o levantamento.

“O presidente está muito satisfeito com o ritmo da vacinação no Brasil, da chegada de novas doses, da distribuição de mais de 100 milhões de doses de vacina. O presidente acompanha o cenário internacional e vê que em outros paises onde a campanha de vacinação já avançou, as pessoas já estão flexibilizando o uso das máscaras. O presidente me pediu que fizesse um estudo para avaliar a situação aqui no Brasil”, disse o ministro.

No Brasil, a população vacinada até agora com as duas doses das vacinas contra a COVID-19 corresponde a 11,06% do total. Em números absolutos, até o momento, foram enviadas a estados e municípios 109,294 milhões de doses de vacinas contra a COVID-19. Deste total, foram aplicadas 71 milhões de doses, sendo 49,5 milhões da primeira dose e 21,46 milhões da segunda dose. Em países que já flexibilizaram o uso da máscara, como Estados Unidos e Israel, a campanha de imunização com as duas doses ultrapassou 42,15% e 59,4%, respectivamente, segundo dados da Our World Data, uma publicação digital especializada na divulgação de pesquisas.

Repercussão 

Senadores reagiram com palavras fortes ao anúncio do presidente da República, Jair Bolsonaro. Os parlamentares classificaram a ideia como ”imbecil” e ”criminosa” e afirmaram que ela se baseia em ”mentiras”.

Líder da oposição e vice-presidente da CPI da Covid, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) destacou que a proposta aparece quando o Brasil se aproxima da marca de 480 mil mortos devido à pandemia. Ele lembrou que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e o ex-ministro dessa pasta Eduardo Pazuello afirmaram à CPI que Bolsonaro não interfere nas políticas de saúde pública. Mas a iniciativa do presidente, segundo o senador, mostra que isso não é verdade.

”A estratégia do governo está clara: infectar a todos. Matar muitos. Uma demonstração clara de como o negacionismo está matando o nosso povo”, escreveu ele nas suas redes sociais.

O senador Jean Paul Prates (PT-RN), líder da minoria, foi o relator da proposta que se transformou na lei que obriga o uso de máscaras em locais públicos (Lei 14.01, de 2020). Para ele, Bolsonaro ”não se importa” com os efeitos da pandemia, e o anúncio do presidente é uma “ordem idiota” que os cidadãos deveriam ignorar. Ele lembrou que pessoas vacinadas ainda podem transmitir a doença.

”Vacina não quer dizer que alguém não possa ser contaminado e se transformar num transmissor da covid-19. O que [Bolsonaro] faz é perigoso para o Brasil e o mundo. Ele luta contra o fim da pandemia”.

De forma semelhante, a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) ressaltou que é comprovada a possibilidade de reinfecção para pessoas que já contraíram a COVID-19. Ela também cobrou do ministro Marcelo Queiroga uma posição firme contra o pedido de Bolsonaro.

”É claro que o presidente sabe que uma pessoa que foi infectada não está imune e que apenas a vacinação da maior parte da população trará segurança aos brasileiros. Pergunta que eu gostaria de ter feito para o ministro Queiroga: qual é o limite do senhor Queiroga entre a honra e um pedido de demissão?”

Alessandro Vieira (Cidadania-SE), membro suplente da CPI da Covid, afirmou que o presidente espalha desinformação e, assim, é responsável pelo alto número de casos da doença no Brasil. ”Bolsonaro está acelerando as mentiras, as teorias conspiratórias e os factoides, tentando tirar o foco dos brasileiros do que importa. Já são mais de 17 milhões de infectados. Mais de 480 mil mortos. E esses números seriam menores sem os inúmeros erros dele”.

Fabiano Contarato (Rede-ES) acusou Bolsonaro de crime contra a saúde pública e ”a vida humana” com essa atitude, e pediu que a CPI trabalhe para responsabilizá-lo. ”Bolsonaro quer aposentar as máscaras? Bastaria ter feito o dever de casa e acelerado a vacinação. Sua sabotagem deliberada ao enfrentamento da pandemia reforça seu indiciamento na CPI”.

Fontes: Agência Brasil e Senado Federal.