Djalma Pinto . Foto ALECE

Existe uma patologia não levada na devida conta na sociedade brasileira. A naturalidade com que se admite o fato de os políticos não colocarem seus filhos nas escolas públicas.
Por que o ensino público, como regra, é frequentado apenas pelos filhos das pessoas de baixa renda? A explicação é óbvia. Porque os responsáveis pela gestão da Administração sabem das suas deficiências. Têm plena consciência da quase impossibilidade de seus descendentes serem competitivos ao utilizá-lo. Nessa distorção, avulta ausência do sentimento de justiça e de solidariedade dos governantes em geral. Para o meu filho, a melhor escola. Para o filho do cidadão mais humilde a escola pública, de onde até as verbas que lhe são destinadas, muitas vezes, são desviadas.
A razão determinante da pobreza de grande parte da população brasileira pode ser assim resumida: a falta de escola de qualidade para todos. Até Delfim Neto, na sua última entrevista, antes de partir para a eternidade, reconheceu que as escolhas e as opções de vida são privativas de cada pessoa, mas todos devem ter igualdade de oportunidades. Na corrida pela sobrevivência, advertiu ser fundamental que todos saiam do mesmo ponto.
Cearenses de Tianguá, Tauá e Messejana, que trabalham na educação pública de países como Alemanha e Coréia do Sul, não se cansam de destacar a isonomia assegurada a todas as crianças a partir da disponibilização do ensino fundamental de qualidade para todos. Na sua qualidade, reside o início da largada para a redução da desigualdade social. Não deixa de ser surpreende e invejável a informação dessas pessoas de exercerem o magistério, em escola pública, frequentada pelos filhos de autoridades da maior expressão em suas cidades.
Está na escola do ensino fundamental, comprometida com a transmissão do saber e de valores para as novas gerações, a base da prosperidade de todos os cidadãos. A persistente incompreensão desse fato pelos responsáveis por nossa governança é causa determinante da desigualdade crescente e da violência.
Professores sem reconhecimento algum de sua importância inestimável para a prosperidade de uma nação; gestores sem a percepção da necessidade de aprimoramento na qualidade do ensino em seu município, tudo isso contribui para a pobreza de nosso povo.
Quem, efetivamente, se preocupa com a qualidade da escola disponibilizada às crianças das periferias mais distantes de nossas cidades? Quem lhes estimula ao cultivo da disciplina necessária para a sedimentação da ordem, sem a qual não há progresso?
Adam Smith, no seu livro clássico Teoria dos Sentimentos Morais, advertia já no século XVIII: “os que tiverem o infortúnio de ser criados no meio da violência, licenciosidade, falsidade e injustiça, perdem não apenas todo o senso da inconveniência de tal conduta, mais ainda todo o senso de sua terrível enormidade, ou da vingança castigo que lhe são devidos. Familiarizam-se com esses vícios desde a infância, o costume tornou-os habitual, e estão muito predispostos a considerá-los como o que se chama o jeito do mundo”.
Quando a sociedade necessita, cada vez mais, do aumento do contingente de policiais, de penitenciárias para abrigar os malfeitores que assaltam e matam em suas ruas, é porque seus governantes não aprenderam nem colocaram em prática o primeiro dever de um Estado que almeja a felicidade de seu povo: disponibilizar escola de qualidade do ensino fundamental para todos.
Pagamos o preço elevadíssimo da violência, em última análise, pela falta de “escolaridade” dos líderes, nas sucessivas gerações, a impedi-los de compreender que a boa escola pública é essencial para a humanização das pessoas e para a evolução da coletividade sob o seu comando.

Djalma Pinto:
Advogado, autor de diversos livros, entre quais Pesquisas Eleitorais e a Impressão do Voto; Ética na Política e Distorções do Poder.