“Eu já vi esse nervosismo e, sinceramente, muitas vezes o mercado não contribui com o País”. Foto: Reprodução/Youtube

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que sua indicação para presidir o Banco Central (o mandato do atual, Roberto Campos Neto, termina no fim do ano) será uma pessoa séria, comprometida com o controle da inflação e o crescimento do País. “Na hora que eu tiver que escolher o presidente do Banco Central vai ser uma pessoa madura, calejada, responsável, alguém que tenha respeito pelo cargo que exerce e alguém que não se submeta a pressões de mercado, e que faça aquilo que for de interesse de 213 milhões de brasileiros”, afirmou. O presidente concedeu entrevista à rádio CBN na manhã desta terça-feira (18).

Lula mencionou a ida de Roberto Campos Neto a São Paulo para uma festa organizada em sua homenagem. A cerimônia, realizada no último dia 10, foi capitaneada pelo governador Tarcísio de Freitas e nela se ventilou seu apoio a uma candidatura de Campos Netos a um cargo no estado. “Cadê a autonomia dele?”, provocou o presidente. “O presidente do BC está disposto a fazer o mesmo papel que o Moro fez? Um paladino da justiça com interesses políticos?”

O presidente reiterou, desse modo, o que já havia dito em outro trecho da entrevista: “Só temos uma coisa desajustada no Brasil nesse instante que é o comportamento do Banco Central. Um presidente que não demonstra nenhuma capacidade de autonomia, que tem lado politico e que, na minha opinião, trabalha muito mais pra prejudicar do que para ajudar o país. Porque não tem explicação a taxa de juros como está”, disse. “Temos uma situação que não necessita essa taxa de juros. O Brasil não pode continuar com uma taxa proibitiva de investimento no setor produtivo.”

Lula ainda sugeriu que Campos Neto poderia estar seguindo os passos de Sergio Moro, ex-juiz que condenou Lula e foi considerado suspeito e incompetente pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Moro tentou disputar a presidência em 2022, mas acabou se elegendo senador.

“Então, quando ele se lança a algum cargo, eu fico imaginando se nós vamos repetir o Sergio Moro. O presidente do BC está disposto a fazer o mesmo papel que o Moro fez? Um ‘paladino da justiça’ com rabo preso a interesses políticos?”, questionou Lula.

Relação com o Congresso

O presidente também falou da complexa relação entre o Executivo e o Congresso Nacional, respondendo a uma pergunta que tocou em uma fala de Jaques Wagner (PT), senador e um de seus líderes, sobre as mudanças na forma de governar e negociar com o legislativo. Questionado se estaria cansado do “varejo da política” e se sua relação com os parlementares mudou em relação aos seus governos anterioes, Lula foi direto: “Mudou muito, Milton. Mudou muito”.

“No governo anterior, como ele não governou o país, porque ele governou uma indústria de mentiras, de fake news, ele deixou o [ex-ministro Paulo] Guedes fazer o que quisesse na economia e deixou o Congresso fazer o que quisesse. Ele não se preocupava com orçamento. O orçamento era do Congresso. Ora, então o Congresso se apoderou”, disse Lula, sem citar o nome do ex-presidente, Jair Bolsonaro (PL).

Lula ressaltou a importância do diálogo contínuo com o Congresso, destacando os esforços de seu governo: “Nós conseguimos primeiro conversar muito com o Congresso. Os ministros têm conversado muito, os líderes, eu, o [ministro da Fazenda] Haddad, nós estamos fazendo as coisas andarem, nem sempre com a rapidez que a gente queria. Mas a gente tem de levar em conta também que o Congresso tem contribuído”.

Ele citou exemplos concretos de colaboração entre os poderes: “A PEC da transição foi uma coisa extraordinária, aprovar a reforma tributária com a pressa que o Congresso aprovou foi extraordinário, e nós agora esperamos que haja a regulamentação. Mas na política você sempre tem problemas”.

O presidente lembrou uma história ilustrativa sobre a dificuldade de governar com o apoio do Congresso: “O Sarney foi presidente, e tinha o apoio de 323 constituintes e de 23 governadores. E ele tinha muita dificuldade com o Congresso Nacional. Foi o Congresso que reduziu o mandato dele. Imagina eu, de um partido que tem 70 de 513 deputados? Nove senadores de 81? Então eu tenho que exercitar a arte de conversar, de convencer”.

Lula concluiu sua análise destacando o empoderamento do Congresso após o governo anterior: “A verdade nua e crua é que depois da experiência do governo passado o Congresso se empoderou demais, e o Poder Executivo tem ficado fragilizado na arte de exercer o orçamento da União. Esse é o dado concreto, e todo mundo sabe disso”.

*Com informações da Agência Gov