Estimulados pela grande líder do Movimento, D. Bárbara de Alencar e pela eloquência de seus filhos, muitas pessoas subscreveram aquele documento sem se darem conta de estarem participando de um golpe contra a Monarquia, então sob o comando de D. João VI, rei fugitivo de Napoleão, que governava o Brasil e Portugal, residindo no Rio de Janeiro.
No dia 7 de maio, porém, a reação dos monarquistas contra os “golpistas republicanos” foi implacável. O aparato do Estado sufocou o movimento e passou a prender todos os envolvidos na conspiração. Desesperada, D. Bárbara de Alencar teve de fugir de seu sítio para não ser presa. Em vão, tentou esconder-se na casa de amigos. A maioria, ciente de que as tropas iriam prender e matar os simpatizantes dos Alencar, pediam-lhe que se afastasse imediatamente pelo risco que ela representava para todos.
Desgastada e maltrapilha, vagando pelas trilhas de um canavial, foi descoberta por uma empregada de sua ferrenha adversária política, D. Matilde Teles, mãe do então Juiz do Crato, Manoel Joaquim Teles, que deveria ser destituído imediatamente do cargo por deliberação da Câmara rebelada, após proclamada a República.
Receosa de tratar-se de uma cilada, resistiu inicialmente em ser levada para a casa de uma inimiga. Exausta e sem opção, ali abrigou-se. Informou à sua adversária sobre a invasão de sua propriedade pelas tropas oficiais, que já tinham se apossado da Ata da Proclamação da República com os nomes de diversas pessoas inocentes, que acabariam sendo fuziladas, sem sequer terem noção da gravidade contida no documento que subscreveram.
D. Matilde avaliou o risco de morte de sua adversária e dos outros moradores participantes do evento. Colocando de lado as divergências políticas, convocou o seu filho, justamente o Magistrado daquele Município, para comparecimento urgente em sua casa. Suplicou-lhe, então, que se apoderasse daquela Ata e dos documentos elaborados pelos revoltosos para evitar o banho de sangue que a cidade vivenciaria, caso não fossem retirados das mãos das autoridades fiéis ao Monarca.
Sensibilizado com as ponderações daquela mulher sensata e preocupado com os sofrimentos a serem suportados pelos munícipes, que sequer tinham noção do que era República, o Juiz convenceu as autoridades a entregarem-lhe a Ata da Proclamação da Revolução Republicana, os decretos, nomeações e atos administrativos elaborados.
Com as cautelas que a situação exigia, dirigiu-se ao sítio de sua mãe e entregou-lhe toda a documentação recebida, convencido de que assim procedendo melhor cumpriria a essência do ideal de justiça, evitando o sofrimento e a morte de pessoas desaviadas que se envolveram naquela manifestação popular de rebeldia.
De posse da papelada, D. Matilde convidou D. Bárbara e juntas foram ao fundo do quintal para queimar o malote deixado pelo juiz. Foi, então, transformada em cinza toda a documentação que seria utilizada para a condenação daqueles que participaram da sessão para Proclamação da República na Câmara municipal. As divergências políticas entre elas foram sepultadas para evitar a brutalidade da repressão aos contrários ao poder dominante.
Presa posteriormente com seus filhos, Bárbara de Alencar não pode realizar o seu sonho de ver o Brasil republicano. Somente 72 anos depois, em novembro de1889, a monarquia foi extinta. Ficaram, porém, as lições de uma mulher que esteve à frente de seu tempo, pagando com a própria liberdade a defesa inegociável dos seus ideais republicanos.
Advogado, autor de diversos livros, entre quais Pesquisas Eleitorais e a Impressão do Voto, O Direito e o Comprovante Impresso do Voto, Ética na Política e Distorções do Poder.
