Djalma Pinto . Foto ALECE

Com muita frequência, os brasileiros são impactados com notícias chocantes relacionadas ao desvio de dinheiro público. A compulsão para sua apropriação indevida é historicamente sem limite. Assalta-se da verba destinada à compra de respiradores para pacientes com síndrome respiratória aguda grave, causada por coronavírus; àquelas endereçadas às escolas e às estradas. Isso provoca imenso dano à população que sequer percebe serem as figuras funestas, envolvidas nessas ilicitudes, as grandes responsáveis por sua pobreza.

Ninguém se dá conta de que o dinheiro desviado sai do bolso do povo, que trabalha e luta para sobreviver. Alguns cidadãos indignados invocam precedentes para assegurar que “aqui se faz, aqui se paga”, na expectativa de que a natureza reaja contra os malfeitores. Outros, mais céticos, se conformam em serem obrigados a viver no país da impunidade. Não acreditam na possibilidade de se revogar a “lei de Gerson” que, em publicidade não oficial, recomendava levar vantagem em tudo, contribuindo para agravar uma praga na cultura dominante de uso do poder para enriquecimento ilícito.

Um fato incontroverso é que todo ser humano, por mais poder, dinheiro e predisposição para desviar verba pública, se não morrer precocemente, terá de conviver com a velhice, que costuma ser o estágio derradeiro em que remorso, arrependimento pelo mal praticado no passado e depressão, muitas vezes, punem os excessos geradores de danos às vítimas indefesas dos responsáveis pela prática de atos ilegais, imorais ou impensados que prejudicam a coletividade,

Para quem se apropria de verba da merenda escolar, na sua velhice um “tribunal” costuma se instalar na consciência e massacrar a mente com esta forma de tortura angustiante noticiada por quem dela já padeceu: “Não podia levar à boca um pedaço de pão sem imaginar imediatamente o bando faminto de criancinhas, penando como passarinhos implumes que abrem debalde o bico e piam em ninho abandonado. Assaltava-me o remorso por haver deixado crianças inocentes sem comida, pela avidez e ganância que me levaram a apropriar-me do dinheiro destinado à sua alimentação”.

Deixar crianças famintas, apoderando-se do dinheiro destinado às suas escolas, cedo ou tarde, cravará no espírito do assaltante uma vergonha e um horror supremo como “um ferro inarrancável”. Eça de Queirós, festejado autor português do século XIX, descreve o que um dia, cedo ou tarde, acaba se robustecendo na mente e no espírito  de delinquentes dessa laia: “Pouco a pouco ergueu-se, petrificou-se na minha alma, e como uma coluna num descampado dominou toda a minha vida interior: de sorte que, por mais desviado caminho que tomassem, os meus pensamentos viam sempre negrear no horizonte aquela Memória acusadora; por mais alto que levantasse o voo das minhas imaginações, elas terminavam por ir fatalmente ferir as asas nesse Monumento de miséria moral”.

“Monumento de miséria moral ambulante”, assim deve ser olhado, discriminado e tratado todo agente público que desvia dinheiro da educação. Não existe ser mais danoso em uma sociedade. O pior de sua perversidade é não se dar conta de que condena ele ao fracasso a geração de jovens sob sua governança. Seja porque não lhes assegura estudo de qualidade, seja pelo péssimo exemplo deixado de que o crime compensa.

A pobreza perenizada decorre da falta de educação capaz de garantir ascensão social, impossível de ser disponibilizada, em local em que os governantes desviam suas verbas. A ganância e o espírito maligno, que os impulsionam para esse crime, devastam os sonhos das crianças menos afortunadas. A despeito desse imperdoável malefício, poucos percebam a dimensão da sua desumanidade. Victor Hugo, no século XIX, no livro Os Miseráveis, não relutou em advertir: “as cidades produzem homens ferozes, porque produzem homens corruptos”.

A falta de mão de obra qualificada, necessária para a atração de empresas, com a consequente impossibilidade do recebimento de bons salários, acaba retroalimentando o ciclo de indigência que impossibilita a sedimentação da igualdade, deixando parte da população em preocupante letargia. Passa da hora de todos acordarem para reconhecer que a pobreza decorre da falta de visão e de sensibilidade dos responsáveis pela governança de um povo que, sem escola de qualidade, fica sem perspectiva alguma de prosperidade. Por não disponibilizarem escolas de qualidade para os seus governados, os assaltantes dessas verbas públicas encabeçam a indecorosa lista dos mais nocivos de sua geração.

*Advogado, autor de diversos livros, entre quais A Cidade da Juventude, Pesquisas Eleitorais e a Impressão do Voto, Ética na Política e Distorções do Poder.