
Bolsonaro foi informado, no Palácio da Alvorada, do crime em perpetração no Ministério da Saúde sobre a compra de vacinas. Foto: Divulgação.
As pesquisas publicadas nos últimos dias, em especial a do último domingo (11), destacando que 70% da população brasileira afirma existir corrupção no Governo Bolsonaro, feriram, senão mortalmente, mas com uma extraordinária força capaz de deixar nocauteado o presidente. Acusações de má gestão podem ser superadas com práticas positivas de Governo, mas as de corrupção deixam marcas muito fortes, capazes até de levar a um ostracismo com desdouro a quem quer que dela seja acusado.
Os indícios de corrupção surgiram na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da pandemia depois da denúncia do servidor do Ministério da Saúde, Luis Ricardo Miranda, e do seu irmão, o deputado federal Luis Miranda. O curso da CPI, instalada no Senado Federal para apurar ações e omissões do Governo Federal no enfrentamento da pandemia que já matou mais de 500 mil brasileiros, foi mudado com a denúncia, também pelo fato de o deputado ter afirmado que o presidente Bolsonaro, no Palácio da Alvorada, a residência oficial da Presidência, ter sido informado do crime em perpetração no Ministério da Saúde.
A CPI prosseguirá gerando desgastes para o presidente Bolsonaro. A carta encaminhada ao Planalto pelos senadores Omar Aziz, Randolfe Rodrigues e Renan Calheiro, respectivamente presidente, vice-presidente e relator da investigação, querendo saber do presidente se ele foi ou não informado das suspeitas de falcatruas no Ministério da Saúde, como afirmaram os irmãos Miranda, é na verdade um libelo ao presidente. Não responder só mais prejuízos lhes causa, agora e na campanha eleitoral, quando, ao tentar esclarecer o episódio que será cobrado por seus adversários, talvez seja muito tarde.
Bolsonaro e seus mais próximos auxiliares sabem quão negativa é a avaliação do Governo. As pesquisas públicas, como as que têm revelado o desgaste político de Bolsonaro, são bem menos percucientes que as encomendadas pelos próprios governantes. Hoje, todos os governantes fazem, para orientação de suas administrações e das ações políticas visando futuras disputas suas e de seus aliados, pesquisas internas amplas, com um universo de entrevistas bem alargado. O que talvez mais tenha irritado o presidente, nos últimos dias, foi o fato de esse desgaste chegar ao conhecimento público, com possibilidade de gerar consequências negativas na sua base de apoio parlamentar.
Deputados e senadores querem fazer uso das benesses do Poder. Mas eles não querem ser aliados de governante desgastado. A gestão Bolsonaro tem repetido tudo que os outros governantes fizeram para garantir uma boa base de apoio parlamentar. Dilma Rousseff foi acusada de liberar emendas e dar cargos para deputados e senadores e acabou sendo afastada da Presidência, com o apoio de muitos dos que se locupletavam de sua administração, exatamente pelo fato de ter perdido o apoio popular. Os parlamentares só querem o bônus, quando o ônus aparece eles escapam.
Bolsonaro já está sendo xingado nas ruas, em grandes manifestações. Ainda tem o poder de reunir muitos apoiadores, tomando como exemplo algumas últimas reuniões. As oposições que não ousavam chamar as pessoas para protestar, talvez temendo decepções, mas alegando respeito à necessidade de evitar aglomerações em razão das recomendações de prevenção contra a propagação do coronavírus, hoje mostra-se mais audaciosa e coordena os movimentos, aproveitando os resultados da CPI da pandemia, agora mais fortes com os indícios de corrupção na compra de vacina.
As declarações públicas dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado e Congresso Nacional, respectivamente Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, no último fim de semana, protestando contra os discursos ameaçadores do presidente Bolsonaro sobre as eleições de 2022, imitando Donald Trump, o ex-presidente americano que, antevendo sua derrota na disputa pela reeleição, como de fato aconteceu, foram uma advertência a Bolsonaro, a ser devidamente levada em consideração, principalmente pelo fato de ambos terem sido eleitos, em fevereiro deste ano para as presidências das duas Casas, com a ajuda do próprio Bolsonaro.
Jornalista Edison Silva analisa a repercussão política do desgaste da gestão do presidente Bolsonaro: