Escrevo este texto com a indignação entalada na garganta, não apenas como um analista do cenário político cearense, mas como alguém que sente na pele e na alma o desvirtuamento de um projeto histórico. O Partido dos Trabalhadores não nasceu em gabinetes acarpetados, não foi forjado em jantares de conciliação com oligarquias e, definitivamente, não surgiu para ser a legenda de aluguel de coronéis da política
nordestina. O PT nasceu do suor, da greve, da luta de classes e, fundamentalmente, da coragem de mulheres e homens que ousaram desafiar o sistema. No entanto, o que assistimos hoje no Ceará é a morte lenta e dolorosa dessa essência, patrocinada por aqueles que deveriam ser os seus guardiões.
Há um processo de asfixia política em curso dentro do PT cearense, e as vítimas têm rosto, gênero e lado: são as mulheres combativas, essencialmente de esquerda, que se recusam a curvar a espinha para o pragmatismo rasteiro da cúpula. Nomes históricos e fundamentais como Luizianne Lins e Larissa Gaspar estão sendo minados, sabotados e silenciados pelo seu próprio partido. É uma operação de destruição interna que beira a crueldade institucional. Mulheres que construíram o partido no sol e na poeira, que enfrentaram o conservadorismo de peito aberto, hoje encontram as portas dos palácios fechadas. É assustador constatar que lideranças do quilate de Luizianne e Larissa sequer conseguem agendas com o Presidente Lula ou com o próprio Governador Elmano de Freitas. Existe um bloqueio deliberado, uma quarentena imposta a quem tem a ousadia de ser coerente.
O arquiteto dessa desfiguração tem nome e sobrenome: Camilo Santana. Em nome de uma suposta e inquestionável “governabilidade”, o atual Ministro da Educação e líder hegemônico do grupo dominante no estado tem entregado o partido de bandeja. Sob a batuta de Camilo, e com a operação contumaz do deputado José Guimarães nos bastidores, o PT do Ceará abriu as porteiras para uma verdadeira invasão. Estamos assistindo perplexos a uma “branquização” do partido. Políticos que até ontem marchavam com a direita, que sustentavam discursos reacionários e que representam o atraso, estão sendo filiados em massa, recebendo tapete vermelho, controle de diretórios municipais e garantias de poder.
Essa “frente ampla” virou um eufemismo para o fisiologismo. Ao trazer esses políticos de direita para dentro de casa, Camilo e Guimarães trazem junto os seus “currais eleitorais” uma prática repugnante que o PT historicamente jurou combater. Transformaram a estrela vermelha em um mero anexo de interesses oligárquicos locais. A governabilidade construída sobre a aniquilação da própria identidade não é vitória, é rendição. É a paz dos cemitérios para a militância de base. O governador Elmano, infelizmente, parece referendar esse isolamento, blindando-se das vozes que poderiam lembrá-lo de onde viemos e para quem deveríamos governar.
Isso é de uma gravidade ímpar, pois fere de morte o nosso partido internamente. E não falo apenas de um ferimento moral ou retórico; falo de uma agressão direta e frontal ao Estatuto do Partido dos Trabalhadores. O nosso Estatuto não é um pedaço de papel para ser lido apenas em época de convenção. Ele é o nosso pacto fundador. Quando o Estatuto consagra a democracia interna, a construção do socialismo, a luta contra as opressões de gênero e raça, e a defesa intransigente da classe trabalhadora, ele repudia visceralmente a entrega de diretórios para coronéis de direita. O Artigo 2º do nosso regimento interno é claro sobre o compromisso com a emancipação política dos trabalhadores. Como conciliar esse compromisso com a entrega das chaves da legenda para quem sempre oprimiu nosso povo?
Mais ainda: o PT orgulha-se de ter cotas, de ter paridade, de empunhar a bandeira do “Elas por Elas”. Que paridade é essa que sufoca suas próprias parlamentares? Que feminismo partidário é esse que impõe às mulheres guerreiras que hoje ocupam mandatos um ultimato covarde de “ou aceita as regras do Clube dos Homens ou saia
do partido”? É uma violência política de gênero praticada institucionalmente, mascarada de “estratégia eleitoral”. A cúpula exige subserviência. Exige que Luizianne Lins apague a sua história de gestões populares em Fortaleza. Exige que Larissa Gaspar cale a sua voz combativa na Assembleia. Se elas não baixam a cabeça, são punidas com o isolamento. O que Camilo Santana e José Guimarães estão fazendo no Ceará é a construção de um partido asséptico, sem conflito, sem povo e sem alma. Eles querem uma esquerda de crachá, dócil, que não incomode os novos “companheiros” recém-chegados da direita bolsonarista ou do centrão fisiológico. A mensagem que enviam à juventude, às mulheres e à base é devastadora: a coerência é um defeito, e o oportunismo é a maior das virtudes.
Diante desse cenário desolador, onde a máquina partidária se volta contra as suas melhores fileiras, a minha palavra a essas mulheres guerreiras não poderia ser outra. A vocês, que estão sendo minadas e empurradas para a margem por não aceitarem a desfiguração do nosso projeto: não recuem um milímetro. O mandato que vocês exercem não pertence a uma cúpula burocrática temporária, não pertence a Camilo, a Guimarães ou a Elmano. O mandato de vocês pertence ao povo cearense, à periferia, às mulheres, aos trabalhadores que confiaram na coerência de suas trajetórias.
Mantenham os seus mandatos, independentemente das pressões partidárias. A história da esquerda no Ceará é muito maior do que as planilhas de governabilidade de quem perdeu o pudor de se aliar ao atraso. Se o Partido dos Trabalhadores do Ceará decidiu rasgar o seu estatuto para acomodar currais eleitorais, a resistência de vocês é a única prova viva de que a verdadeira esquerda cearense ainda respira. Não se submetam ao “aceita ou saia”. Fiquem, lutem, exponham as contradições, e se, ao final, o ambiente se tornar irrespirável, saibam que a força política de vocês transcende qualquer sigla que tenha decidido abandonar a sua própria essência. A luta continua, e ela exige coragem para enfrentar não apenas os inimigos declarados, mas também aqueles que sorriem para nós enquanto nos tiram o oxigênio.
Israel França
Filiado e Militante do PT Brasil
