É natural imaginar a forma de vida dos nossos antepassados. Historiadores, antropólogos, cineastas e outros estudiosos nos ajudam a compreender como viviam; qual a intensidade de suas crenças religiosas etc. Sabe-se, com relativa precisão, a forma de sua governança. Difícil e sem atrativo, todavia, é alguém imaginar, por exemplo, como viverão as pessoas em novembro de 2134, ou seja, daqui a 110 anos. É que o tempo parece só haver passado para os nossos ancestrais. Mesmo sabendo que o futuro suportará as consequências de nossas ações no presente, poucos se preocupam em tornar a vida melhor das próximas gerações.
Mas, afinal, como será a orla de Fortaleza? Nela haverá algum hotel para os turistas se hospedarem? Os mais ricos exercerão quais atividades? As pessoas poderão andar na rua sem risco de serem assaltadas? Quem residirá nos imóveis que hoje nos pertencem? Qual o conceito a ser atribuído pelos historiadores do século XXII àqueles que nos governam no atual século XXI?
Saramago, no seu livro, As Intermitências da Morte, narra a euforia inicial e a posterior angústia de um lugar onde ninguém morria. Hospitais e asilos geriátricos não conseguiam suportar a demanda de pessoas que, sofrendo e mesmo pedindo para desaparecer deste mundo, eram obrigadas a permanecerem vivas, envelhecidas e sem nenhuma razão para continuar na terra.
No Ceará do início do século XX, quem tinha um cavalo vistoso era considerado o mais rico de seu município. Depois, para alguém ser considerado como tal precisava ter uma fazenda. No século XXII, qual será o critério para aferição do rank da fortuna? Todos terão, porém, a comprovação de que somos, na verdade, meros possuidores dos imóveis que ocupamos no presente. O tempo sepulta seus proprietários. Transfere a titularidade dos bens para outras pessoas que permanecem vivas em nosso planeta.
Poder e dinheiro, como se vê, são efêmeros. O bom conceito, a colaboração para tornar a vida de todos muito melhor, isso, sim, dá dignidade à pessoa. Afinal, depois do 7º dia do sepultamento, apenas as boas ações praticadas, que servem de orgulho para os descendentes, integram, positivamente, o patrimônio moral de cada cidadão. Entre estas ações a serem celebradas, merece realce a aplicação correta pelo agente político das verbas da educação, garantindo escola com efetiva qualidade para transmitir saber e valores para as crianças mais carentes das localidades sob sua governança. A perpetuação da pobreza impede a boa lembrança de quem, no comando da Administração, não disponibilizou boas escolas para todos.
Autor de diversos livros, entre os quais O Direito e o Comprovante Impresso do Voto, Ética na Política e Distorções do Poder.
