Carlos, "Vicente" e Celso: intérpretes do Brasil - Por Filomeno Moraes - Blog Edison Silva

Carlos, “Vicente” e Celso: intérpretes do Brasil – Por Filomeno Moraes

Filomeno Moraes é Cientista Político. Professor Universitário. Doutor em Direito e Livre-docente em Ciência Política. Ex-Professor Visitante na Universidade de Valência (Espanha). Foto: Ares Soares – JPG.

Carlos é Carlos Castello Branco, Castellinho, o jornalista; “Vicente” (entre aspas mesmo) é Florestan Fernandes, o sociólogo; e Celso é Celso Furtado, o economista. O que os une? Em primeiro lugar, o nascimento no ano de 1920. Em segundo, e principalmente, a espetacular contribuição que cada um proporcionou, nos seus diferentes campos de atuação, para tornar o Brasil mais moderno, mais democrático e mais inteligível.

Castellinho foi de Teresina para Belo Horizonte, onde, ainda acadêmico de Direito, começou a trabalhar como repórter no Estado de Minas, dos Diários Associados. O bacharel foi obnubilado pelo jornalista, que, transferindo-se para o Rio de Janeiro, começou a trabalhar em O Jornal, passou em seguida por outros veículos de comunicação e chegou ao Jornal do Brasil, nele permanecendo por mais de trinta anos, até à morte em 1993. O ponto de inflexão da sua atividade jornalística se deu, quando, em janeiro de 1962, começou a assinar coluna política diária que, iniciada na Tribuna da Imprensa pós-Carlos Lacerda, foi transferida para o Jornal do Brasil.

Era a “Coluna do Castello”, de informação e análise, que se tornou o mais reconhecido espaço da crônica política nacional, perpassando a vigência de quatro constituições, a de 1946, a de 1967, a da outorgada de 1969 e a de 1988; o governo (desgoverno, às vezes) de treze presidentes da República; três sistemas partidários; a longa ditadura, que foi 1964 até 1985; a distensão, a abertura e a redemocratização. Os seus livros Introdução à Revolução de 1964 (2v) e Os militares no poder (3v), coletâneas de colunas selecionadas, bem como o livro A renúncia de Jânio, permitem uma amostragem significativa da história política escrita por um jornalista.

Florestan Fernandes (“Vicente”), paulistano, começou a trabalhar aos seis anos de idade para ajudar a mãe nas despesas de casa. Portador do curso primário, depois dos dezessete anos de idade frequentou um curso de madureza por três anos, concluindo o equivalente a sete anos de estudos. Ingressou em 1941 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo e, em dez anos, tornou-se bacharel, mestre e doutor em Ciências Sociais, e, de 1945 até 1969, exerceu a docência na FFCL/USP. Em 1951 obteve o doutorado em Sociologia, com a tese A função social da guerra da sociedade Tupinambá, tornando-se professor catedrático de Sociologia em 1964, agora com a tese A integração do negro na sociedade de classes. A brutalidade da ditadura o aposentou compulsoriamente em 1969 com base no AI-5, obrigando-o ao exílio nos Estados Unidos e Canadá.

Decididamente marcado pelo contexto de transformações sociais, econômicas e políticas desencadeadas a partir das décadas de 40 e 50, momento em que a urbanização, a industrialização e as migrações internas provocaram a emergência de novos atores sociais e políticos, o trabalho de Florestan buscou sempre articular realidade empírica e reflexão teórica. Além dos tupinambás, os seus temas de pesquisa foram fundamentalmente a questão racial no Brasil, contestando a tese da existência de uma democracia racial; o método na investigação científica; a educação pública, laica e gratuita; a revolução burguesa brasileira; e a transformação social. Autor de inúmeros livros e artigos científicos, também teve participação político-institucional como deputado constituinte e deputado federal pelo Estado de São Paulo, na legenda do Partido dos Trabalhadores. Morreu em 1995.

Celso Furtado, que se tornou bacharel em Direito pela antiga Universidade do Brasil e doutor em Economia pela Sorbonne, saiu de Pombal, no sertão paraibano, para João Pessoa, e daí para Recife, Rio de Janeiro e, como oficial da Força Expedicionária Brasileira, foi à guerra no front italiano, servindo como oficial de ligação junto ao V Exército norte-americano. Em 1949, mudou-se para Santiago do Chile para trabalhar na recém-criada Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), que se tornou talvez a mais importante escola de pensamento econômico do Terceiro Mundo. Desde então, e crescentemente influente, CF passou a defender a teoria que propunha o desenvolvimento para a América Latina por meio de transformações da estrutura econômica, como a reforma agrária e as mudanças nas relações de comércio exterior. Além do mais, decididamente antimonetarista, defendia o ponto de vista segundo o qual o desenvolvimento devia apoiar-se na industrialização voltada para o mercado interno, temas que foram o fio condutor da sua atividade como teórico e como homem público.

Escreveu o documento intitulado Uma política para o desenvolvimento do Nordeste, que orientou o governo Juscelino Kubitschek na criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), tendo sido o seu primeiro superintendente. Autor do clássico Formação econômica do Brasil, produziu substantiva bibliografia, além de ter sido um professor e conferencista consagrado. Faleceu em 2004.

Tomando de empréstimo títulos da obra autobiográfica de CF, por tentarem “organizar a fantasia” os três foram vítimas dos responsáveis por “desfazer a fantasia”. Sofreram a perseguição política, econômica e moral da ditadura: Castellinho foi preso no dia da edição do AI-5, e, desde 1964 e por vários anos, a violência foi usada contra o colunista e o jornal em que escrevia, na tentativa de calá-lo; Florestan foi aposentado compulsoriamente, respondeu a inquérito policial-militar e a processo, acusado de subversão, sofreu o exílio; CF entrou na primeira lista das punições baseadas no AI-1, tendo os direitos políticos suspensos por dez anos e sido obrigado ao exílio. Afinal, pode-se dizer-se que, sem os três, o Brasil seria menos moderno, menos democrático e menos inteligível do que é. Por conseguinte, são faróis para iluminar o “reorganizar a fantasia”.

P.S. “Vicente” foi o nome que a madrinha, na residência de quem a mãe era empregada doméstica, deu informalmente ao menino, por considerar impróprio atribuir-se o pomposo antropônimo Florestan a uma pessoa de tão baixa extração social.

 

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