Djalma Pinto . Foto ALECE

Duas expressões marcam o atual estágio de vida da humanidade em nosso planeta: longevidade e qualidade de vida. Conforme o Censo de 2022, seriam mais de 37 mil os idosos no Brasil com mais de 100 anos. Na década de 50, a expectativa de vida dos brasileiros era de 33,7 anos. Em 2024, é 76,4 anos. Esse dado positivo, exige a formulação de políticas públicas sobre saúde, previdência etc. para que, no futuro, isso não se torne um pesadelo para quem vier a alcançar a longevidade.
Alguns anos atrás, em vão, tentei conversar com o genitor de um cidadão que tinha, na ocasião 102 anos. Meu interesse em ouvi-lo decorria da informação de não mais desejar ele permanecer na terra, assegurando que Deus se esquecera de levá-lo deste mundo, a despeito do amor que os filhos lhe devotavam como retribuição por ter sido um bom pai. Reclamava que os seus amigos e familiares de sua geração já haviam partido, não fazendo sentido algum permanecer entre os vivos. A despeito da atenção e do carinho recebido de sua família, ao ser conduzido, pela última vez, ao hospital, ponderou a um dos filhos no interior da ambulância: – “não é possível que desta vez eu ainda volte para cá”. Não voltou. Somente, então, fui informado de que, depois de haver completado 100 anos, se recusava a falar com qualquer pessoa que não fosse de sua família.
A despeito da legislação e da maior conscientização sobre a necessidade de tratamento digno às pessoas idosas, é essencial que autoridades e a sociedade estejam atentas em relação à forma como estão sendo tratadas essas pessoas pelos familiares, em casa e, sobretudo, nos abrigos existentes para recebê-las. O destino natural de todos os seres humanos, com ou sem expressão de poder econômico ou político, que não morrerem antes de serem atingidos pela senilidade, é vivenciarem o último estágio da vida, que se inicia aos 65, até o final da existência.
Os especialistas têm insistido que não basta ter apenas longevidade, é essencial tê-la com qualidade de vida. Muito dinheiro conquistado nos melhores dias, em que a criatividade e o trabalho convergiam para o sucesso, significa pouco se não tiver havido qualquer cuidado com a saúde para a preservação da qualidade de vida no seu entardecer. Afinal, após o nascer, o envelhecer comprova a realidade irrefutável de que, na essência, somos efetivamente iguais enquanto humanos.
Não deixa de ser, por outro lado, melancólico o existir daqueles que, na velhice, recebem somente a atenção e o cuidado de pessoas, nas casas de repouso, convivendo apenas com as visitas protocolares de familiares próximos.
Uma particularidade, que agrava a senectude, é a perda da esperança, dos sonhos que estimulem a expectativa da chegada do amanhecer para realizá-los. Reiteram os estudiosos sobre a necessidade de cada pessoa preparar-se para vivenciar esse último estágio de sua passagem pela terra.
A vida, em última análise, é uma maratona, sendo o grande troféu a chegada na velhice sem medo, com a mente lúcida para enfrentá-la com altivez. A preservação do bom conceito pessoal, ao longo do exercício de atividades públicas e privadas, garante a respeitabilidade de cada pessoa, no grupo social, por haver legado lições de grandeza de espírito, estimuladoras da admiração de todos, no crepúsculo de sua existência.
Autor, entre outros, dos livros Ética na Política e a Cidade da Juventude.