Em 2024 o Ceará teve um crescimento de 6,49 % no seu PIB. Na época falei que seria mais um voo de galinha e que aquele forte crescimento não seria sustentável. Infelizmente estava certo, em 2025 o crescimento foi menos da metade (2,87%) e a perspectiva para esse ano é inferior a 2,00%. No último trimestre de 2025 o crescimento foi praticamente zero (0,21%) e o crescimento de emprego foi negativo em -1.800, com a indutaria de transformação e construção perdendo 7.700 empregos.

Há uma velha fórmula na economia que sempre reaparece travestida de novidade: mais impostos, mais gastos, mais dívida e mais juros. O resultado é conhecido — crescimento curto, artificial e insustentável. O Ceará estar praticando esse roteiro. Entre 2022 e 2025, a receita do estado cresceu o dobro da inflação. A inflação acumulada foi de 14,4% e o crescimento das receitas de 30,0%. No mesmo período, os gastos cresceram a uma velocidade ainda maior, 43,0%,
aproximadamente o triplo da inflação. Ou seja, o ganho de receita não foi usado para reequilibrar as contas ou ampliar a capacidade de investimento, mas sim para alimentar uma expansão acelerada da despesa corrente.

Além de gastar muito o estado gasta mal. Financia uma estrutura administrativa gigante na lógica do fisiologismo político e investe mal como o exemplo do VLT que mesmo oferecendo passagem de graça só transporta em um mês 60% do que o sistema de ônibus transporta em um dia. O resultado inevitável aparece na dinâmica da dívida. Com despesas crescendo acima da receita, o endividamento deixa de ser instrumento de investimento e passa a financiar
o próprio funcionamento da máquina pública. E, com mais dívida, vêm mais juros.

Hoje, o Ceará já destina um volume de recursos para juros e amortizações próximo ao que investe. Trata-se, na prática, de um jogo de soma zero para o PIB: cada real que vai para o serviço da dívida é um real a menos em infraestrutura, educação ou produtividade. Esse modelo cria a ilusão de crescimento no curto prazo — impulsionado pelo gasto público —, mas corrói as bases da expansão sustentável. Sem investimento consistente e com crescente rigidez orçamentária, o estado perde capacidade de induzir ganhos de produtividade e de atrair capital privado de forma duradoura.

O aumento de arrecadação, que poderia ser a oportunidade para um ajuste estrutural, acaba sendo desperdiçado. Em vez de reduzir vulnerabilidades, reforça-se o ciclo vicioso: mais receita leva a mais gasto, que leva a mais dívida, que leva a mais juros, que leva menos consumo e investimento. O voo de galinha pode até impressionar nomomento da decolagem — mas, como sempre, termina rápido e perto do chão.