Há um paradoxo comprovado na sociedade brasileira. A despeito da disponibilização de escola para grande parte da população, tem crescido de forma exponencial os níveis de criminalidade. De um modo geral, a educação tem se restringido apenas à transmissão de conhecimento de uma geração para outra. Daí, o fato de uma pessoa, por exemplo, ser tecnicamente bem qualificada e, no entanto, praticar ilicitudes descritas como crimes no Código Penal.
Muitas escolas, inclusive bem qualificadas no ranking das melhores, entendem que a propagação da ética é tarefa da família, cabendo aos educadores somente a incumbência de transmitir os saberes exigidos nos exames do ENEN e em outras provas equivalentes. Isso explica, por certo, o envolvimento de seus alunos, quase sempre muito brilhantes, em espantosos desvios de dinheiro público, em abusos, no exercício do poder nas diferentes esferas, e em outras ações nocivas à coletividade. O elevado conhecimento, sem qualquer apreço pela moralidade, pelo devido processo legal, pela dignidade da pessoa humana, pela empatia e pela integridade, contribui apenas para aumentar sua esperteza, maximizando a dificuldade do trabalho dos investigadores na apuração dos crimes praticados por essas pessoas bem-preparadas.
Para uma maior compreensão da importância da Ética, na formação dos profissionais de todas as áreas, bastaria uma enfática divulgação do nome da escola e da faculdade cursada pelos envolvidos em escândalos, relacionados a desvio de verba pública ou a crime que provoque indignação na população. Alguns, envolvidos em desvios de dinheiro do povo alcançados na Operação Lava-Jato, chegaram a chorar em público com vergonha da família e arrependidos por não terem percebido que, na vida, o mais importante é nunca perder o bom conceito nem a respeitabilidade perante os contemporâneos. A busca cega pelo dinheiro pode estimular a criminalidade, que estigmatiza para sempre a pessoa, mesmo quando os aplicadores da lei fazem vista grossa em relação aos seus ilícitos, documentados e amplamente discutidos nas ruas pela população.
O Jornal O Globo, edição de 14/08/2025, estampou esta matéria: “Fiscal acusado de cobrar propina foi melhor aluno no ITA e tinha “papel central” no esquema que levou à prisão o dono da Ultrafarma”.
Uma atenção especial precisa ser dada para esta indagação pela sua relevância: em que ocasião de sua existência, o profissional de qualquer área do conhecimento percebe a relevância do Código de Ética da sua profissão?
A resposta é dolorosa, mas irrefutável. Imediatamente após a polícia chegar, na sua residência, bem cedo, pela manhã, com um mandado de prisão ou de busca e apreensão, depois de ser indiciado ou denunciado pela prática de crime, como superfaturamento de obra pública, formação de quadrilha, corrupção ativa, concussão, prevaricação etc.
O indivíduo, então, envergonhado perante a família e os amigos percebe a importância da honra e da conduta honesta exigida para o desempenho de sua atividade. Constata, a partir desse vexame, que os amigos desaparecem completamente. Na sua mente, permanece para sempre a sensação de que a pessoa, que o encontra em qualquer lugar, está a recriminar a sua ação nociva à sociedade, mesmo que não tenha ela conhecimento ou lembrança do seu delito. É o preço amargo cobrado pelo tribunal da consciência. Resultado, enfim, do desapreço pela Ética na propagação da educação.
Djalma Pinto é advogado, Mestre em Ciência Política e autor de diversos livros entre os quais Ética na Política, Distorções do Poder, Educação para a Cidadania e Cidade da Juventude.
