Israel França

O jogo político no Ceará nunca foi para amadores. Quem acompanha de perto sabe que alianças são firmadas e desfeitas com a mesma rapidez com que se trocam os discursos. Mas, desta vez, a trama que se desenrola é mais do que previsível, e eu venho avisando isso a várias pessoas dentro do PT Ceará há bastante tempo: Cid Gomes (PSB) se move nos bastidores para passar a perna no governador Elmano de Freitas (PT), consolidando sua própria candidatura para 2026, enquanto parte do governo petista, ironicamente, abriga aliados diretos do senador.

O suposto rompimento de Cid com o PT já estava escrito há tempos, mas muitos dentro do partido preferiram ignorar os sinais. A aliança entre os Gomes e o PT no Ceará nunca foi uma parceria de iguais; sempre estivemos em posição subordinada, aceitando as regras do jogo impostas pelo grupo que dominou a política cearense por décadas. Agora, Cid Gomes prepara o golpe final, articulando sua saída e levando consigo o que puder para fortalecer seu projeto pessoal.

O mais preocupante é que essa articulação não acontece às claras. Pelo contrário, há secretários do próprio governo Elmano que ainda respondem politicamente a Cid, mantendo-o informado e ajudando a pavimentar seu caminho. Isso significa que, dentro da administração petista, há peças-chave que trabalham não para fortalecer o projeto do PT, mas para alimentar a candidatura futura do ex-governador.

O que torna tudo ainda mais vergonhoso é o papel de Camilo Santana. Enquanto muitos petistas cearenses continuam a lustrar sua imagem e aclamá-lo como um líder incontestável, ele assiste de camarote à ascensão de Cid, permitindo que a traição aconteça sob sua gestão política. O mesmo Camilo que foi eleito governador pelo PT agora assiste, de maneira silenciosa, ao enfraquecimento do partido no Ceará. Seu “bom mocismo” tem um preço alto, e quem pagará essa conta será a militância petista, que pode se ver mais uma vez relegada ao papel de coadjuvante.

E faltou dizer que, nesse processo, estão sendo engolidas lideranças históricas do PT Ceará, como Luizianne Lins (PT). A vice-presidência da Assembleia Legislativa custa o silêncio da deputada Larissa Gaspar (PT), que outrora foi uma das poucas vozes combativas no legislativo estadual. E seguimos calados, enquanto nos corredores da Câmara Municipal de Fortaleza todos se curvam ao poder ofertado pelo PT de Evandro e Camilo. Aquele mesmo PT que agora vê sua identidade política ser diluída para servir a um projeto de poder que não é nosso.

A movimentação de Cid para reerguer o PSB no Ceará não é um mero reposicionamento político. É um claro ataque ao PT. A “reconstrução” do partido comandado por Cid vem junto com uma mensagem direta: os Gomes querem retomar o controle total da política cearense e não há espaço para o PT nesse projeto. E, enquanto isso, o governo federal assiste sem reação, permitindo que o Ceará se torne um campo minado para o partido nas próximas eleições.

Os petistas cearenses precisam acordar antes que seja tarde demais. O governador Elmano de Freitas deve, urgentemente, cortar os laços com aqueles que conspiram contra seu governo. Manter dentro da administração aliados de Cid é abrir as portas para o inimigo agir de dentro para fora. E a militância do PT precisa pressionar por um posicionamento claro do partido. O Ceará já viu esse filme antes, e o final é sempre o mesmo: os Gomes vencem e os petistas ficam a ver navios.

Ainda há tempo para mudar esse roteiro, mas é preciso agir agora. O PED vem aí, e com ele a oportunidade de redefinir os rumos do PT no estado. A escolha é nossa: continuamos reféns de um projeto que nos despreza ou construímos, de fato, um partido forte e independente no Ceará? O tempo para decidir está acabando.

Israel França
Filiado e Militante do PT Brasil