Djalma Pinto . Foto ALECE

A pior e mais trágica lição de líderes políticos de todos os níveis à cidadania se resume nestas palavras nefastas: “rouba, mas faz”. Esse slogan nocivo foi inserido na mente de uma parte da população, que passou a referendar a malignidade de pessoas com essa perversão.
Ladrão seria apenas aquele indivíduo que assalta o celular, que furta a bolsa ou as joias das mulheres nas paradas de ônibus. Esse sim, seria o pernicioso, o ameaçador da paz social que deve ser enclausurado para garantia da segurança da cidade. As próprias vítimas não se dão conta de que o seu algoz da esquina é consequência da mentalidade patológica, que prestigia político sem respeito algum para com o dinheiro dos contribuintes. O meliante, que ataca os celulares na rua, maximiza, na verdade, a lição passada pelo agente político que assalta dinheiro do povo sem ser notado.
Todas as nações, que alcançaram a prosperidade, têm plena consciência de que aquele que ataca verba pública é a pessoa mais nociva na sociedade. Não deixa nunca sobrar dinheiro para pagar bons salários aos professores e a quem presta serviço relevante à sua comunidade.
“Quem rouba, mas faz” é e sempre será ladrão. É ladrão da pior espécie porque ludibria a boa-fé do eleitorado menos esclarecido, induzindo-o a crer que essa postura faz parte “da realidade da política”. Não. Isso nada tem a ver com política. Tem a ver sim, com delinquência. Com criminalidade que gera dor, sofrimento e angústia na população. Trata-se de postura intolerável que responde pela pobreza e pela falta de prosperidade de homens e mulheres cerceados no direito de acesso à escola de qualidade. Direito esse jamais assegurado por quem faz da pilhagem do dinheiro público meio de enriquecimento pessoal.
Um gestor que rouba, jamais terá compromisso em disponibilizar saúde pública à altura da necessidade do povo. Desviará parte expressiva das verbas, maquiando sua gestão para passar a impressão de que não subtraiu indevidamente todo o dinheiro ao longo de sua gestão. Pobre povo que convive com um slogan tão patológico. Investe no poder líderes que destroem sonhos e esperança, agravando o sofrimento da comunidade sem consciência da sua malignidade.
“Quem rouba, mas faz” é portador de morbidez cívica. Indigno do exercício de função pública. Enquanto essa conscientização não ficar sedimentada, na mente de cada eleitor no momento de escolher quem deve conduzir o seu destino político, amargaremos todos, indistintamente, crescente violência e desigualdade.
Neste momento de indicação dos governantes dos municípios, uma reflexão se impõe: todo gestor que, para realizar algum benefício aos munícipes, precisou roubar uma parte dos recursos da coletividade, deve ter a penitenciária como destino. Jamais ser investido no cargo com a chave do cofre onde é depositado o dinheiro da população.
Cada votante deve responder, com sinceridade, esta indagação: colocaria para vigia da minha casa uma pessoa que já assaltou algumas residências na minha região? Se a resposta for sim, continue subscrevendo o slogan “rouba, mas faz” com a plena consciência e a expressa advertência de que as graves dificuldades e a insegurança no seu município persistirão, em decorrência da incapacidade de perceber a dimensão do desastre social que a sua conivência com a ilicitude provoca.
Advogado, autor de diversos livros, entre quais Pesquisas Eleitorais e a Impressão do Voto, Distorções do Poder, O Direito e o comprovante impresso do voto, e Ética na Política.