No dia 21/09/2024, após o incidente policial com Cleidiane, Bebeto mantém interlocução com contato salvo como “Tibério Evandro”, provavelmente Tibério César Burlamaqui, ex-Chefe de Gabinete da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. Começa assim o relatório da Polícia Federal, encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, na parte relacionada ao esquema criminoso do deputado Júnior Mano, com o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão:
Bebeto solicita, de maneira objetiva, que o então presidente da Assembleia, Evandro Leitão, interceda junto ao Comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar, Coronel Acácio, no sentido de “abrir as portas” e suavizar a atuação da Polícia Militar na região “pra não acoxa”, especialmente em favor de seus familiares e aliados. Na troca de mensagens, Bebeto chega a afirmar:
“não vou ficar aqui em Canindé sendo perseguido pela polícia, minha irmã perseguida pela polícia e todos os meus amigos.” A frase, além de reforçar o envolvimento direto de Cleidiane nas ações sob investigação, explicita a pretensão de criar um ambiente de imunidade tática para os operadores do esquema em plena execução eleitoral.
Na mesma conversa, Bebeto encaminha o contato telefônico do comandante Acácio a Tibério e, logo após, informa já ter falado com Evandro Leitão, agradecendo ao interlocutor pela mediação. Em seguida, há registros adicionais que comprovam não apenas a existência de contato direto entre Bebeto e Evandro Leitão, mas também a habitualidade dessa interlocução. Em alguns trechos, Bebeto menciona encontros pessoais com Evandro e reuniões em Fortaleza, como descrito em mensagens trocadas com Fabiano Cachoeira, nas quais afirma que se deslocou à capital para tratar de assuntos diretamente com o presidente da Assembleia.
O conjunto de elementos comprova a existência de uma tentativa deliberada de instrumentalizar agentes públicos e lideranças políticas de alto escalão do Estado para proteger os interesses do grupo criminoso em momentos de tensão. A tentativa de desmobilizar a atuação da Polícia Militar em Canindé durante o período eleitoral, articulada a partir da cúpula do Legislativo cearense, evidencia o grau de
influência e articulação da organização, reforçando o padrão de aparelhamento institucional já mapeado em outros núcleos da investigação. Trata-se, aqui, de mais um episódio em que o poder público é manipulado para garantir impunidade, neutralizar a fiscalização e assegurar o pleno funcionamento das engrenagens ligadas a Carlos Alberto Queiroz Pereira.
Imagens a seguir, extraídas do aparelho celular de Carlos Alberto (IPJ 05/2025), reforçam a proximidade de Bebeto e Evandro Leitão, fortalecendo a tese de que havia relação direta e contínua entre ambos. A Imagem 12 mostra Evandro ao lado de Bebeto, do deputado federal Junior Mano e de outras lideranças, em ambiente informal. Já a Imagem 13 traz Bebeto, Evandro e Cleidiane juntos, o que indica
aproximação dos irmãos com o mencionado ex-parlamentar. Na Imagem 14, Bebeto e Evandro aparecem em um ambiente mais reservado, em registro aparentemente antigo, sugerindo um vínculo já consolidado. Por fim, na Imagem 17, Evandro e Bebeto surgem novamente juntos, desta vez em cenário institucional. O conjunto dessas imagens confirma que a interlocução entre os dois não era pontual, mas recorrente, o que confere ainda mais credibilidade às mensagens em que Bebeto afirma ter acionado diretamente o então presidente da Assembleia Legislativa para interferir em questões sensíveis à atuação da organização em Canindé.
EDUARDO SALES SÁ BARRETO LEITÃO
A Polícia federal mobilizou, em um só dia, 14 equipes para fazer busca e apreensão em imóveis de Júnior Mano, ou por ele ocupados, além de residências de integrantes do esquemas criminoso. Na batida do apartamento funcional ocupado por Júnior Mano, em Brasília, estavam dormindo outras pessoas ligadas ao seu grupo, como descreve o relatório da Polícia Federal, e dessas pessoas foram apreendidos os equipamentos eletrônicos, como registrado a seguir:
Em outro ponto do imóvel, na mochila atribuída a EDUARDO SALES, foi localizada agenda contendo anotações manuscritas com nomes de pessoas politicamente expostas, além de folhas impressas com títulos “urgência pagamentos” e “novos contratos”. Esses registros podem referenciar pagamentos prioritários de interesse do grupo, especialmente considerando que EDUARDO é filho do Prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão, personagem que se mostrou próximo de Bebeto Queiroz,
tendo este recorrido ao então presidente da Assembleia Legislativa para interceder em seu benefício, notadamente para influenciar forças de segurança no contexto eleitoral.
A diligência também registrou a presença de um cofre embutido, cuja abertura foi realizada com auxílio de chaveiro da Câmara dos Deputados, revelando-se vazio. Todo o procedimento transcorreu sob acompanhamento das testemunhas e representantes da Casa Legislativa, sem intercorrências que comprometessem a legalidade do ato.
Importa destacar, ainda, os vínculos já analisados nos autos: VICTOR LUCAS, ex-secretário parlamentar do Deputado Matheus Soares Noronha, filho do ex-deputado Genecias Noronha, figura mencionada em análise financeira por
transferências vultosas a Carlos Alberto Queiroz, o Bebeto de Choró; EDUARDO SALES, filho de Evandro Leitão, cuja atuação política e relacional sugere influência em favor de Bebeto; e YVENS WATILA OLIVEIRA DA SILVA, empresário ligado a eventos patrocinados por prefeituras sob gestão da família Mano, inclusive com doações indiretas e contratos que indicam proximidade com o núcleo político investigado. Relembro que no estacionamento do imóvel residencial do parlamentar em Fortaleza se encontrava veículo atribuído a YVENS WATILA OLIVEIRA DA SILVA. Esses elementos, associados aos achados materiais, reforçam a linha investigativa sobre articulação político-financeira voltada à manutenção de poder e favorecimentos ilícitos.
