Israel França

No xadrez da política cearense, a fumaça quase sempre precede o fogo. Nos últimos dias, os bastidores ferveram com a possível saída da deputada federal e ex-prefeita Luizianne Lins do Partido dos Trabalhadores. Como militante que acompanha de perto a dinâmica partidária e não tem o hábito de fazer análise baseada em achismos, venho trazer luz aos fatos e, principalmente, ao que eles representam para o nosso campo político.
Posso afirmar com total propriedade: o diálogo entre Luizianne Lins e a Rede Sustentabilidade é real. Não se trata de boato de corredor ou “balão de ensaio”. Essa aproximação e as tratativas foram confirmadas diretamente por representantes da alta cúpula da Rede, tanto no âmbito estadual do Ceará quanto na executiva nacional. A porta está escancarada, e o convite para que ela assuma a presidência da sigla no estado e protagonize o projeto de 2026 está na mesa.
Contudo, para não cairmos na precipitação comum aos afoitos da política, é fundamental pontuar: a saída não é um fato consumado. Até o presente momento, não houve a oficialização da desfiliação do PT, tampouco a assinatura da ficha na Rede. O cenário é de diálogo avançado, de reflexão profunda, mas a caneta ainda não tocou o papel. O que me obriga a escrever esta reflexão, no entanto, não é apenas o fato, mas o motivo.
Luizianne não é uma figura de ocasião. Ela milita na esquerda desde os anos 80, assinou sua ficha no PT em 1989 e carrega um capital político imensurável. Foi vereadora, deputada estadual, duas vezes prefeita da quinta maior capital do país e segue sendo uma das vozes mais autênticas na defesa das mulheres e da periferia. Se uma liderança com esse peso histórico e com essa base social sólida chega ao ponto de sentar à mesa com outra legenda para negociar sua saída, o alerta vermelho deveria estar soando ensurdecedoramente nos gabinetes do diretório estadual.
Infelizmente, o que vemos é uma direção anestesiada por um pragmatismo cego.
O PT cearense, em sua ânsia por inflar números e garantir uma “governabilidade” de aluguel, tem escancarado as portas para prefeitos e lideranças que até ontem nos atacavam visceralmente. Estende-se o tapete vermelho para a velha política e para a centro-direita, enquanto se asfixia quem construiu a legenda. A busca por “novos aliados” transformou o partido em um balcão de acomodações, onde quadros históricos perdem espaço, não têm voz nas decisões estratégicas e são tratados como peças descartáveis.
Eu defendo o projeto nacional do Partido dos Trabalhadores, mas não faço política de olhos vendados. A eventual saída de Luizianne, se vier a se consumar, não será uma traição dela ao projeto, mas o resultado direto de um processo de escanteamento promovido por quem acha que a militância é massa de manobra e que a coerência ideológica pode ser trocada por acordos de cúpula. Quem comemora a saída de um quadro dessa envergadura não entende absolutamente nada sobre a base que nos trouxe até aqui. Se o pragmatismo eleitoral continuar sufocando a nossa memória e os nossos melhores nomes, a esquerda cearense perde.

Mas quem sairá sangrando de verdade, com uma fratura exposta em sua identidade, será o próprio PT. Seguimos acompanhando os desdobramentos, com o pé na porta e a verdade na mesa. A vigilância não dorme.