O laboratório político do Ceará explodiu e os estilhaços estão atingindo em cheio o coração da nossa democracia e as bases históricas do progressismo. Como jornalista, militante e um observador implacável das engrenagens do poder que se movem nos bastidores da nossa política, venho acompanhando de perto, nas trincheiras e através das minhas análises no Blog Edison Silva, o desmoronamento de uma era. O que estamos testemunhando não é uma simples oscilação de poder, é uma reestruturação sísmica.
A hegemonia que o Partido dos Trabalhadores construiu em aliança com o clã Ferreira Gomes, uma coalizão que parecia inabalável e que dominou o estado por mais de uma década e meia, encontra-se hoje completamente estilhaçada. O Ceará, outrora o farol da estabilidade política no Nordeste, mergulhou em um cenário de imprevisibilidade absoluta, ditado por uma profunda crise do lulismo regional e por realinhamentos que flertam descaradamente com o mais puro cinismo.
Dói na alma de quem tem compromisso com a classe trabalhadora constatar a dissonância cognitiva que se instalou confortavelmente nos corredores refrigerados do Palácio da Abolição. O enigma da gestão de Elmano de Freitas é, antes de tudo, uma tragédia de proporções épicas. De um lado da balança, a burocracia governamental exibe planilhas repletas de entregas e investimentos macroeconômicos inegáveis. Do outro lado, o que pesa e arrasta o governo para o fundo é uma impopularidade estrutural e uma insatisfação pública crônica que sangram o capital político do PT diariamente.
O governo tem o desplante de celebrar um aporte recorde de R$ 4,7 bilhões previstos para o ano de 2025, focando as lentes da propaganda oficial em projetos estruturais monumentais. A ferrovia Transnordestina, segundo os números oficiais, alcançou 80% de execução na sua primeira fase no nosso estado. Obras grandiosas como o Eixão das Águas bateram a marca de 60% de avanço, enquanto R$ 187 milhões foram injetados em obras de abastecimento hídrico. Pela métrica tradicional da velha política de gabinete, Elmano de Freitas deveria estar navegando em águas serenas, com a reeleição garantida no horizonte.
Mas a realidade crua e violenta das ruas, o cotidiano das periferias de Fortaleza e do nosso vasto interior, não se mede apenas em toneladas de concreto ou em quilômetros de trilhos. O eleitor não vai às urnas agradecer por ferrovias quando ele sente pavor de sair de casa à noite, quando o toque de recolher é ditado pelo crime e não pela lei. A nossa crise crônica de segurança pública e a dominação territorial exercida pelas facções criminosas anulam e trituram completamente os dividendos eleitorais de qualquer macroprojeto bilionário. Não é por acaso, nem por perseguição, que o instituto Veritá classificou Elmano como o sétimo pior governador do Brasil.
A tecnocracia petista no Ceará, embriagada pelo poder, esqueceu a lição mais básica da ciência política: a garantia da integridade física e da vida é a base fundamental do contrato social. O cidadão aterrorizado na ponta da linha, a mãe de família que não sabe se o filho volta vivo da escola, não se importa minimamente com as disputas federativas sobre o Porto do Pecém. Eles querem o direito de existir sem medo, algo que este governo se mostra cada vez mais incapaz de prover. E como se a falência retumbante na área da segurança pública não fosse o suficiente para acender todos os alertas vermelhos, a articulação política do governo estadual foi acometida por uma cegueira estratégica absolutamente inexplicável.
A incursão desastrada do Palácio da Abolição na política de Sobral foi um autêntico suicídio político. Em uma tentativa atabalhoada de isolar adversários, o governo decidiu jogar no lixo a coerência e apoiar o atual prefeito Oscar Rodrigues e o deputado Moses Rodrigues, ambos figuras carimbadas do União Brasil. Foi uma aliança espúria com os adversários mais ferrenhos e históricos dos Ferreira Gomes, e o palco escolhido para essa traição foi justamente Sobral, a fortaleza eleitoral inexpugnável da família. O resultado dessa genialidade política? Empurramos Ivo Gomes diretamente de volta para os braços de Ciro Gomes.
Ivo declarou publicamente, para quem quisesse ouvir, que não tem mais nenhum compromisso com Elmano de Freitas, afirmando de forma categórica que não se mistura com o palanque de seus algozes locais. Trocamos, em um passe de mágica regado a amadorismo, a fidelidade de um aliado histórico por uma base conservadora fisiológica que jamais pertenceu e jamais pertencerá ao nosso campo político. Aproveitando-se de forma magistral desse vácuo de liderança e dessa incompetência articulatória monumental do governo petista, Ciro Gomes opera a sua metamorfose política.
Eu já havia alertado sobre esse movimento sorrateiro em meus artigos anteriores, denunciando com todas as letras a engenharia do golpe político de Cid e Ciro contra a esquerda no Ceará. Ciro, percebendo de forma calculista que é estruturalmente impossível desafiar a figura de Lula pelo flanco esquerdo do espectro político, executou um pivô milimetricamente calculado e avassalador em direção à centro-direita e à direita mais fisiológica. O seu objetivo é claro como a luz do dia: ele quer absorver o eleitorado antipetista e se consolidar como o pragmático salvador da pátria cearense.
A arquitetura bizarra dessa nova aliança reúne adversários históricos que até ontem trocavam farpas públicas: PSDB, PL e União Brasil marchando sob a batuta de Ciro. Ver Ciro Gomes sentar à mesa com a liderança do Partido Liberal e tecer elogios públicos a Alcides Fernandes, pai do deputado André Fernandes, a própria epítome do bolsonarismo em nosso estado, chamando-o de homem decente, de fé e o nome ideal para o Senado, é a prova cabal e definitiva de que a elasticidade ideológica de Ciro não conhece limites ou pudores.
E a tragédia maior é que essa tática, por mais indigesta, asquerosa e hipócrita que seja, está funcionando. As pesquisas de opinião colocam Ciro com ampla e confortável vantagem nas intenções de voto. Ele conseguiu a proeza de desnacionalizar a eleição estadual, convencendo parte significativa do eleitorado de que é perfeitamente possível ser lulista apaixonado para a presidência da República, mas votar no antipetismo de Ciro Gomes para tentar resolver o banho de sangue da criminalidade no estado.
Enquanto sofremos esse cerco implacável pela direita, patrocinado por antigos aliados, nós sangramos até a morte pelo nosso próprio flanco esquerdo. O dia 2 de abril de 2026 ficará marcado na história política deste estado como o dia infame em que o PT cearense, sequestrado por uma burocracia insensível, perdeu definitivamente a sua alma. A desfiliação da ex-prefeita Luizianne Lins, após impressionantes 37 anos de militância dedicada, suor e lágrimas pelo partido, para ingressar na Rede Sustentabilidade, representa uma hemorragia crítica e possivelmente fatal. Luizianne não é apenas um quadro político ou um nome em uma lista de filiados, ela é a âncora histórica, o rosto e o coração da esquerda urbana em Fortaleza.
A sua saída não foi um capricho pessoal ou uma crise de vaidade, foi o resultado inevitável de um processo de marginalização sistemática, cruel e orquestrada de forma cirúrgica por Camilo Santana, Elmano de
Freitas e José Guimarães durante as nefastas eleições de 2024. A burocracia do partido a preteriu de forma humilhante, silenciou suas bases, ignorou seu capital político e a inércia cúmplice da direção nacional selou o seu trágico destino fora da sigla que ela ajudou a construir.
Agora, postulando o Senado Federal pela federação PSOL-Rede, Luizianne fratura de forma irreversível e permanente o voto progressista no estado do Ceará. O eleitorado fiel da capital tenderá, de forma muito natural e justificada, a votar nela para o Senado e aplicar um severo voto de protesto contra o PT no governo estadual. Essa dinâmica perversa deixa Elmano de Freitas espremido em um paredão político: violentamente atacado por Ciro Gomes na pauta sensível da segurança pública e totalmente desconstruído por Luizianne Lins na pauta ideológica, identitária e da lealdade partidária.
Nesse caldeirão fervente de traições e realinhamentos, o papel desempenhado por Cid Gomes é o do contorcionismo absoluto e da conveniência familiar. Cid criticou publicamente as alianças bolsonaristas do irmão em um passado recente, mas a força gravitacional avassaladora das pesquisas eleitorais e a inegável pressão dos laços de sangue falaram muito mais alto do que qualquer princípio político.
