Na política, assim como na engenharia, não existe vácuo: todo ato é uma escolha estrutural. E a cena que testemunhamos em Fortaleza esta semana é a planta baixa de uma traição: o Secretário de Educação, Idilvan Alencar, abre as portas do seu gabinete para os conchavos dos cargos comissionados, enquanto as fecha na cara do SINDIUTE, o sindicato que representa a categoria que, de fato, constrói a educação.
Isso não é um ato falho. É um método. É a arquitetura do novo “modo petista” de governar em Fortaleza. E o que me causa uma dor profunda, como filiado e militante, não é nem a ação do secretário. É o silêncio ensurdecedor e por fim, a cumplicidade do meu próprio partido.
O PT de Fortaleza, ao invés de defender o sindicato que é um pilar histórico da nossa luta, prefere soltar uma nota de repúdio contra a presidenta Ana Cristina. É a inversão perversa da lógica. É o partido que nasceu da luta dos trabalhadores usando a máquina partidária para atacar uma sindicalista legitimamente eleita, tratando-a como inimiga. É um espetáculo grotesco que me enche de vergonha.
Na mesma semana o PT Fortaleza soltou uma nota em defesa do Vereador Adail Jr. (PDT), que desferiu diversos ataques a Presidenta do sindicato SINDIUTE e também filiada ao Partido dos Trabalhadores, ou seja o PT Fortaleza prefere defender um homem que não tem histórico de luta e militância sindical e que sequer já dialogou com as lutas dos movimentos sociais da cidade.
Mas sejamos honestos: essa nota é apenas o sintoma. A doença é a própria gestão do prefeito Evandro Leitão neste primeiro ano.
Não me levem a mal. Eu digo isso com a dor de quem carrega a estrela no peito e defende este partido. Mas quem, em sã consciência e sem estar com a visão turvada por um cargo, pode afirmar que Evandro Leitão faz uma boa gestão? Quem pode dizer isso, ou está delirando, ou está deliberadamente cego.
É uma gestão que governa de costas para a militância e de frente para os conchavos que a elegeram. É uma gestão que, para se sustentar, precisa do silêncio e da subserviência da nossa base. E o que vemos é a prova disso: Idilvan não recebe o sindicato porque a ordem, vinda de cima, é a de não dialogar com quem ousa pensar diferente, com quem ousa cobrar o que foi prometido.
O PT Fortaleza se tornou um partido que tem medo da sua própria base. Um partido que prefere a foto com o comissionado ao suor da assembleia sindical. E isso, meus companheiros, é o caminho mais curto para a nossa autodestemolição. A mesma demolição que quase sofremos na última eleição, quando o autoritarismo quase venceu, precisamente porque a cúpula se recusou a ouvir a voz das ruas.
A minha lealdade não é com o aparelho que persegue sindicalista. A minha lealdade é com a história do Partido dos Trabalhadores, que está sendo rasgada todos os dias, que tem como maior referência de liderança política um sindicalista. A luta do SINDIUTE, hoje pelo que percebo, não é apenas pela educação, é pelo direito de existir e resistir.
E se nós petistas militantes que acreditamos no Partido dos Trabalhadores continuarmos calados, o que nos diferenciará de quem não ganhou as eleições?
Israel Segundo de França Cordeiro
Filiado e Militante do Partido dos Trabalhadores
