No exercício do poder, uns com predisposição para o fisiologismo se deliciam em dizer “sim” a tudo, outros sentem prazer em tudo negar. Julgam estes que exercer o poder é exteriorizar arrogância. Nem o “sim” em excesso, nem o “não” como regra, qualquer um deles, desde que a satisfação exclusiva do interesse público seja a única motivação de toda ação administrativa.
Muitos, que atuaram em nome do Estado ou na iniciativa privada de forma ilícita, tirando proveito da função pública ou enganando pessoas de boa-fé, chegam ricos à velhice, mas em situação de fazer pena. Outros já não conhecem dinheiro e não recebem atenção alguma daqueles para os quais, motivados por corrupção ou subserviência, estiveram a serviço quando ocuparam cargos relevantes, comprometendo para sempre a própria respeitabilidade.
Ditadores, magnatas e caudilhos não são imunes à arteriosclerose e outros males, que costumam transformar velhos em crianças antes de emigrarem, compulsoriamente, para lugar desconhecido pela força invencível da morte, como genialmente lembrava Erasmo de Rotterdam, no seu livro clássico Elogio da Loucura.
Augusto Pinochet, o ditador mais implacável da América Latina no século XX, temido pelos inimigos e pelos próprios amigos pela determinação em fazer cumprir tudo o que lhe passava pela cabeça, em fevereiro do ano 2000, em Londres, para locomover-se numa cadeira de rodas necessitava da ajuda de terceiros.
Ninguém que o visse naquela situação de misericórdia, semblante com a expectativa da morte, jamais poderia imaginar que naquele ser decrépito já se personificou a imagem da arrogância, da vitalidade do militar prepotente, incapaz de supor que tudo na vida é finito.
A saúde invejável desfrutada por alguém em determinado momento e mesmo o poderio militar mais sólido, tudo se esfacela pela força implacável do tempo.
Candidatos a ditadores, inclusive, adolescentes que percebem no próprio espírito uma expectativa de conquista do poder pela força, inspirai-vos no semblante moribundo de Pinochet, incapaz de caminhar pelo impulso dos próprios pés. Conscientizai-vos de que qualquer que seja o ditador padece de anomalia, por supor que somente ele é capaz de resolver os problemas do seu povo. Todos os tiranos passam; não passam, porém, a memória e a lembrança do sofrimento de suas vítimas.
O vaidoso, por sua vez, julga-se o centro do universo. Ninguém se encontra ao seu nível. Sua nocividade, enquanto detentor do poder, reside no fato de priorizar sempre aquilo que convém ao seu ego, ainda quando prejudicial à coletividade. Tem a convicção de ser sabedor de tudo, desprezando, muitas vezes, observações valiosas de pessoas lúcidas. Apenas os que lhe prestam reverência e chancelam, entusiasticamente, suas observações são ouvidos ou a ele têm acesso, quase sempre para ratificar o suposto acerto de todas as ações e decisões.
Jamais terá alcance para compreender esta advertência de Spinoza: “Ninguém é mais iludido pela bajulação do que o orgulho”.
Djalma Pinto é advogado, Mestre em Ciência Política e autor de diversos livros entre os quais Ética na Política, Distorções do Poder, Educação para a Cidadania e Cidade da Juventude.
