Qual a razão básica para os habitantes da Ucrânia desejarem, inicialmente, fazer parte da União Europeia? Seguramente, não é para hostilizar nem agredir a Rússia. É apenas para usufruírem da mesma prosperidade alcançada pelos cidadãos da Estônia, Letônia e Lituânia, países bálticos que passaram a integrar a União Europeia, em 2004, depois da desintegração da União Soviética em 1989. Além disso, constataram os ucranianos a acentuada prosperidade e a melhoria do padrão de vida da Polônia, após libertar-se da influência dos russos, e passar a adotar as diretrizes dominantes no Ocidente de plena liberdade econômica e de expressão.
A maior comprovação desse anseio de prosperidade dos ucranianos reside no fato de o então Presidente da Ucrânia, Victor Yanukovych, fiel aliado e protegido de Putin, em 2013, se comprometer a assinar um pacto econômico com a União Europeia. Foi, porém, obrigado a mudar de ideia sob a ameaça russa de um bloqueio econômico. Essa sua brusca mudança de posição revoltou sobretudo os jovens. Não gostariam de envelhecer como os seus pais, suportando os vestígios miseráveis do período soviético, marcado por uma “economia letárgica, burocracia corrupta e estagnação.”
Têm total razão a juventude da Ucrânia. Basta olhar para a Croácia, Bósnia e Montenegro, países que conquistaram a sua soberania com a dissolução da Iugoslávia, para constatar que o modelo comunista não gera melhoria na condição de vida do povo. O sacrifício da liberdade para a suposta fruição da igualdade não se justifica. A realidade exibida, ao longo da História, demonstra apenas perseguição e opressão contra aqueles que ousam divergir dos governantes nesse regime, cuja legitimidade, como regra, se assenta nas armas.
Em 2014, após a invasão da Crimeia, Valodymyr Zelensky, ainda comediante, fez esta revelação difundida em recente livro do jornalista Simon Shuster: “tenho sangue judeu, falo russo e sou cidadão da Ucrânia. Amo este país e não quero fazer parte de outra nação”. Dirigindo-se a Putin, sem ainda saber que seria porta-voz do sentimento do seu povo, foi mais enfático: “Se quiser, eu imploro de joelhos, mas, por favor, não ponha nosso povo de joelho.”
Eleito Presidente, Zelensky, sem qualquer experiência militar, tinha apenas a determinação de morrer pela independência de sua pátria. Essa postura corajosa fortaleceu o espírito dos ucranianos e foi decisiva para a heroica resistência contra a agressão russa. Impactou os líderes ocidentais, pela sua demonstração de bravura e com estas palavras vigorosas: “Provem que não nos deixarão. Provem que são realmente europeus, e então a vida vencerá a morte, e a luz vencerá as trevas.”
Ao contrário do que imaginavam os militares russos, não foram eles recebidos como imaginavam, “com flores e como libertadores da Ucrânia”. A explicação pelo desencanto na recepção é simples. O modelo de governo opressor e estagnado, adotado pela Rússia, não seduz as novas gerações. Os mais novos não desejam reviver o destino infeliz dos povos submetidos, compulsoriamente, ao sistema autoritário, ineficiente, com elevado teor totalitário com que o Estado controla a vida dos cidadãos.
Na verdade, a Ucrânia não era anti-Rússsia. Apenas os seus cidadãos não admitem submeterem-se ao modelo de governança ultrapassado, sem condição de propiciar o crescimento constatado nas nações que conseguiram se libertar do jugo soviético. Isso justifica e estimula a vigorosa resistência do povo ucraniano.
Djalma Pinto é advogado, Mestre em Ciência Política e autor de diversos livros entre os quais Ética na Política, Distorções do Poder, Educação para a Cidadania e Cidade da Juventude.
