Durante debate na Câmara de Fortaleza sobre Educação, Adail Júnior chegou a chamar Adriana Almeida de “louca”. Foto: CMFor

Pelo menos três vereadoras da Câmara Municipal de Fortaleza denunciaram o enfrentamento de violência política de gênero na Casa Legislativa no embate com seus pares masculinos. O caso mais recente envolveu o vereador Adail Júnior (PDT), que é reincidente nas denúncias feitas pelas parlamentares, e a vereadora Professora Adriana Almeida, do Partido dos Trabalhadores (PT).

Durante embate sobre a Educação, na quarta-feira passada, o pedetista chegou a chamar a petista de “louca”, afirmando que lideranças locais e até a população deveriam achar que Adriana é louca, visto os posicionamentos dela sobre a área. A vereadora é professora  e atua há anos como gestora de escolas públicas no Ceará.

Após o embate envolvendo os dois, outras vereadoras afirmaram ter sofrido algo semelhante, apontando Adail como agressor verbal na tribuna da Casa Legislativa. Enfermeira Ana Paula (PSB) e Adriana Nossa Cara (PSOL) também já tiveram embates acalorados com o pedetista, principalmente em relação a discussão sobre a gestão do prefeito Sarto.

“Não é a primeira vez que passamos por isso. Nossa presidente do sindicato (dos professores) foi chamada de vagabunda. Nossa vice-governadora foi chamada de garganta de aluguel. Mandaram nossa vereadora Adriana Gerônimo se calar e eu fui chamada de louca”, lembrou Adriana Almeida. Ela afirmou já ter entrado em contato com o Ministério Público, com a Frente Parlamentar de Defesa da Mulher da Assembleia Legislativa e a Procuradoria da Mulher da Câmara Municipal.

“Não podemos mais aceitar com naturalidade as ofensas que recebemos por pessoas que querem nos diminuir. Se a gente recua, eles vêm para cima e fazem com que a gente deixe de ocupar nossos espaços. Que nenhum machista venha calar nossas vozes”, afirmou.

Durante o embate com Adail Júnior, Adriana Almeida chegou a se emocionar afirmando que o vereador ataca mulheres e a Educação apenas para defender aliados, como o prefeito Sarto e o ex-prefeito Roberto Cláudio. “Eu exijo respeito com a profissão de professora, com minha posição de mulher nesta Câmara. Não vamos aceitar ser chamada de louca porque defendemos nossos direitos”, disse.

Ela retornou ao assunto na quinta-feira (20), agradecendo a rede de apoio que recebeu. O presidente da Casa, Gardel Rolim (PDT), estava presidindo a sessão, mas não emitiu qualquer consideração sobre as falas da colega atacada.

Adail Júnior não se quedou e chegou a afirmar que não fez qualquer ofensa à vereadora, mas apenas teria feito um questionamento sobre o fato de ela ser ou não “louca”. “Acho que dou ibope, só pode. Se eu não desse ibope, não me usavam. Perguntas minhas iriam para o ralo”, ironizou.

A vereadora Adriana Nossa Cara se solidarizou com Adriana Almeida e lamentou que haja violência política de gênero na Câmara Municipal da quarta maior cidade do País. “Um vereador abrir a boca para chamar outra colega parlamentar de polca é inaceitável. Infelizmente, os homens, de maneira geral, não estão acostumados em ver mulheres com posicionamento”, lamentou.

“Louca”

Segundo pontuou Enfermeira Ana Paula, essa não é a primeira vez que há um ataque contra as mulheres e que ela sofreu agressões parecidas desde que iniciou seu mandato na Câmara de Fortaleza. Segundo disse, é mais difícil para uma vereadora exercer o seu papel de parlamentar. “É violência política de gênero sim. Se fosse apenas para debate do ponto de vista do nosso pensamento, tudo bem. Mas o’que vemos todos os dias quando se tem discurso acalorado são colegas indo para o campo da ideia pejorativa das mulheres, chamar de louca, de leviana e até outros sinônimos”.

“Aconteceu comigo diversas vezes, tem acontecido com a Adriana Nossa Cara,  e agora com a Professora Adriana Almeida. Quando as casas legislativas sexistas, homofóbicas, masculinas vêem a mulher com força e voz, tentam ir para o campo das situações vexatórias como aconteceu comigo e com a Adriana. Aconteceu com a Luizianne, com a Larissa Gaspar. Esse é nosso cotidiano e por isso não podemos deixar esses espaços”, apontou Ana Paula.